Filme 'O som ao redor' a partir da ética da alteridade.
O
texto a seguir tem como objetivo trazer uma análise do filme “O
som ao redor” dentro do que a psicologia ambiental nos apresenta e
considerando tanto fatores quanto ao conceito de alteridade e
responsabilidade nem como os conceitos que englobam as psicologias
que, de uma forma geral trabalham com base em sentimento, sentido,
significados do indivíduo.
O
filme “O som ao redor”, produção brilhante do cineasta
pernambucano Kléber Mendonça Filho nos apresenta uma visão
realista e sensível do dia a dia de pessoas que vivem em ambientes
repletos de personagens influentes a cada um deles. O longa-metragem
nos apresenta uma relação histórica muito além de uma simples
contextualização de nossos dias mas, uma abordagem onde a figura
dos latifúndios no Brasil permanecem vivos em nossa sociedade,
apenas, e por algumas vezes, travestidos de outras formas ou
personagens.
A
trama se ambienta em um bairro de classe média alta do Recife, mais
especificamente em Boa Viagem. Neste bairro, cerca de três ruas são
dominadas pela família de um senhor chamado Francisco (W.J. Solha).
Na trama este “poder” sobre tudo o que se passa nas ruas passa a
ser ameaçado quando uma equipe de vigilância propõe aos vizinhos
um serviço de segurança 24 horas, o qual todos contratam de
imediato. Neste momento a influência e o poder de Francisco acabam
por se enfraquecerem. Neste contexto e os vigias das ruas em
constante alerta, cada morador pode emfim ter seu próprio latifúndio
em paz e ter mais segurança quanto aos roubos que ocorriam
frequentemente na vizinhança.
Se
fossemos estabelecer qual linha de pensamento seguirmos aqui,
certamente escolheríamos a corrente transacionalista desta
psicologia, por considerarmos que ela a relação entre o homem e seu
entorno de forma mais dinâmica e abrangente. Assim, seria impossível
estudar o homem e o ambiente de forma separada, não pode dicotomizar
o homem, cabendo assim destacar todos os aspectos
psico-socio-ambientais que norteiam o assunto em questão.
Da
apropriação de espaço
É
notório que as concepções de apropriação são bastante
diversificadas pois existe uma multiplicidade de pensamentos que
podem servir como base para a questão da apropriação. Segundo
Pol (1996), o princípio da apropriação surge da necessidade de o
indivíduo se diferenciar do outro, demarcando ou estabelecendo, de
uma forma mais sofisticada que os outros animais, seu território, e
criando, desse modo, possibilidades e referências estáveis que o
ajudam a orientar-se e a preservar sua identidade diante de si e dos
outros. Um exemplo utilizado pelo autor é o fato de as pessoas
sempre tornarem seu lar diferente do encontrado.
Já
no contexto do pensamento de Lévinas, este conceito tem mais a ver
com o fato de o outro ser inatingível, ou seja, é ele quem me
afeta. O processo de construção da subjetividade só pode acontecer
de fato porque antes da existência do “eu” já existia “o
outro”, ou seja, este processo de construção subjetiva numa
lógica levinasiana tem mais a ver com o “trauma” que o outro
provoca em mim. Desta forma esta
alienação do eu é inevitável, mas a isso ele chamará de "evasão
do ser". O eu se transforma em Mim. Nessa ótica, a
instabilidade da identidade não ocasiona a alienação do indivíduo,
pois, segundo Lévinas (citado por Freire, 2002, p. 59): "O
psiquismo é o outro no mesmo sem alienar o mesmo".
A tranquilidade descobre o Eu nesta prontidão para
um
Outro, a tranquilidade descobre o Eu no seu carácter insubstituível,
já que
ninguém
pode tirar ao Eu esta oportunidade única que é a responsabilidade
por
um
Outro: “Eu posso
pôr‐me no lugar dos Outros, mas ninguém pode pôr‐se no meu
lugar.
Deste modo a minha identidade é inseparável do sujeito. (Lévinas
1995: 97)
Podemos
a partir do filme discutir também a questão da ética da alteridade
radical, onde
Lévinas nos mostra que ela empreende um tipo de destronamento do eu
em função do outro, desta forma acaba por propor um certo
rompimento com a lógica identitária. Essa lógica compreende as
questões de proteção e estabilidade do eu, a transformação do
outro no mesmo. Trata-se do acolhimento incondicional da diferença
indo de encontro
à noção da apropriação como um processo de identificação. O
conceito de hospitalidade também é importante que seja citado, onde
ela faz menção à acolhida de um ambiente estranho ao nosso.
Trata-se, do desafio de se conviver lado a lado com o diferente, com
a alteridade.
O
som ao redor nos apresenta diversas camadas de nossa sociedade, como
a do senhor Franscico que age conforme agiam os coronéis que
mandavam e desmandavam em tudo, onde o dinheiro e suas posses
funcionassem como uma espécie de autoridade para fazer e desfazer o
que quiser. Podemos ver isso claramente na cena que é a prova e o
símbolo desse poder que tudo ignora e desafia, quando o personagem,
em um passeio noturno, entra no mar exatamente onde há uma placa
onde se lê: "Cuidado: área sujeita a tubarões".
De
certa forma, Francisco simboliza todos aqueles "coronéis"
típicos de um antigo Nordeste, que mandam e desmandam, passando por
cima de tudo, afinal, têm o dinheiro e, consequentemente, o poder.
Uma cena, que poderia ser quase banal, é a prova e o símbolo desse
poder que tudo ignora e desafia, quando o personagem, em um passeio
noturno, entra no mar exatamente onde há uma placa onde se lê:
"Cuidado: área sujeita a tubarões". A personagem Bia
(Maeve Jinkings), mãe de família classe média, dona de casa cujo
maior problema, além do calor infernal, é o cachorro que não para
de latir na casa ao lado também mostra outra faceta de nossa
sociedade: um alguém insatisfeita buscando de diversas maneiras ter
uma paz e seu prazer em algo que de fato lhe complete.
Vemos
portanto que em O som ao redor, o que de fato funciona como elo entre
as classes são os seguranças, que, paradoxalmente, aumentam a
vulnerabilidade de todos pois, os guardas da rua estão agora, dia e
noite a observarem a vida dos moradores da rua, quem entra, quem sai,
a que horas chegam. Os sons são fator importante para o filme pois,
este é um personagem que se entrelaça aos outros. Os sons tem tem
em si suas implicações sociais em cada um deles, pois eles revelam
quem somos, aqueles que ouvimos, onde e como vivemos etc.
O
filme sugere até um exercício: preste atenção aos sons que você
é capaz de emitir, e também naqueles que você ouve todos os dias.
Qual a implicação social que existe em cada um deles. É a partir
desta ótica que se materializam as contradições sociais de nosso
país.
