Reflexões sobre a vida numa perspectiva da psicologia, filosofia e sociologia

terça-feira, 25 de novembro de 2014

Análise do filme "O som ao redor" na perspectiva da Psicologia ambiental


Filme 'O som ao redor' a partir da ética da alteridade.

O texto a seguir tem como objetivo trazer uma análise do filme “O som ao redor” dentro do que a psicologia ambiental nos apresenta e considerando tanto fatores quanto ao conceito de alteridade e responsabilidade nem como os conceitos que englobam as psicologias que, de uma forma geral trabalham com base em sentimento, sentido, significados do indivíduo.

O filme “O som ao redor”, produção brilhante do cineasta pernambucano Kléber Mendonça Filho nos apresenta uma visão realista e sensível do dia a dia de pessoas que vivem em ambientes repletos de personagens influentes a cada um deles. O longa-metragem nos apresenta uma relação histórica muito além de uma simples contextualização de nossos dias mas, uma abordagem onde a figura dos latifúndios no Brasil permanecem vivos em nossa sociedade, apenas, e por algumas vezes, travestidos de outras formas ou personagens.

A trama se ambienta em um bairro de classe média alta do Recife, mais especificamente em Boa Viagem. Neste bairro, cerca de três ruas são dominadas pela família de um senhor chamado Francisco (W.J. Solha). Na trama este “poder” sobre tudo o que se passa nas ruas passa a ser ameaçado quando uma equipe de vigilância propõe aos vizinhos um serviço de segurança 24 horas, o qual todos contratam de imediato. Neste momento a influência e o poder de Francisco acabam por se enfraquecerem. Neste contexto e os vigias das ruas em constante alerta, cada morador pode emfim ter seu próprio latifúndio em paz e ter mais segurança quanto aos roubos que ocorriam frequentemente na vizinhança.

Se fossemos estabelecer qual linha de pensamento seguirmos aqui, certamente escolheríamos a corrente transacionalista desta psicologia, por considerarmos que ela a relação entre o homem e seu entorno de forma mais dinâmica e abrangente. Assim, seria impossível estudar o homem e o ambiente de forma separada, não pode dicotomizar o homem, cabendo assim destacar todos os aspectos psico-socio-ambientais que norteiam o assunto em questão.

Da apropriação de espaço

É notório que as concepções de apropriação são bastante diversificadas pois existe uma multiplicidade de pensamentos que podem servir como base para a questão da apropriação. Segundo Pol (1996), o princípio da apropriação surge da necessidade de o indivíduo se diferenciar do outro, demarcando ou estabelecendo, de uma forma mais sofisticada que os outros animais, seu território, e criando, desse modo, possibilidades e referências estáveis que o ajudam a orientar-se e a preservar sua identidade diante de si e dos outros. Um exemplo utilizado pelo autor é o fato de as pessoas sempre tornarem seu lar diferente do encontrado.

Já no contexto do pensamento de Lévinas, este conceito tem mais a ver com o fato de o outro ser inatingível, ou seja, é ele quem me afeta. O processo de construção da subjetividade só pode acontecer de fato porque antes da existência do “eu” já existia “o outro”, ou seja, este processo de construção subjetiva numa lógica levinasiana tem mais a ver com o “trauma” que o outro provoca em mim. Desta forma esta alienação do eu é inevitável, mas a isso ele chamará de "evasão do ser". O eu se transforma em Mim. Nessa ótica, a instabilidade da identidade não ocasiona a alienação do indivíduo, pois, segundo Lévinas (citado por Freire, 2002, p. 59): "O psiquismo é o outro no mesmo sem alienar o mesmo". A tranquilidade descobre o Eu nesta prontidão para
um Outro, a tranquilidade descobre o Eu no seu carácter insubstituível, já que
ninguém pode tirar ao Eu esta oportunidade única que é a responsabilidade por
um Outro: “Eu posso pôr‐me no lugar dos Outros, mas ninguém pode pôr‐se no meu
lugar. Deste modo a minha identidade é inseparável do sujeito. (Lévinas 1995: 97)

Podemos a partir do filme discutir também a questão da ética da alteridade radical, onde Lévinas nos mostra que ela empreende um tipo de destronamento do eu em função do outro, desta forma acaba por propor um certo rompimento com a lógica identitária. Essa lógica compreende as questões de proteção e estabilidade do eu, a transformação do outro no mesmo. Trata-se do acolhimento incondicional da diferença indo de encontro à noção da apropriação como um processo de identificação. O conceito de hospitalidade também é importante que seja citado, onde ela faz menção à acolhida de um ambiente estranho ao nosso. Trata-se, do desafio de se conviver lado a lado com o diferente, com a alteridade.

O som ao redor nos apresenta diversas camadas de nossa sociedade, como a do senhor Franscico que age conforme agiam os coronéis que mandavam e desmandavam em tudo, onde o dinheiro e suas posses funcionassem como uma espécie de autoridade para fazer e desfazer o que quiser. Podemos ver isso claramente na cena que é a prova e o símbolo desse poder que tudo ignora e desafia, quando o personagem, em um passeio noturno, entra no mar exatamente onde há uma placa onde se lê: "Cuidado: área sujeita a tubarões".

De certa forma, Francisco simboliza todos aqueles "coronéis" típicos de um antigo Nordeste, que mandam e desmandam, passando por cima de tudo, afinal, têm o dinheiro e, consequentemente, o poder. Uma cena, que poderia ser quase banal, é a prova e o símbolo desse poder que tudo ignora e desafia, quando o personagem, em um passeio noturno, entra no mar exatamente onde há uma placa onde se lê: "Cuidado: área sujeita a tubarões". A personagem Bia (Maeve Jinkings), mãe de família classe média, dona de casa cujo maior problema, além do calor infernal, é o cachorro que não para de latir na casa ao lado também mostra outra faceta de nossa sociedade: um alguém insatisfeita buscando de diversas maneiras ter uma paz e seu prazer em algo que de fato lhe complete.
Vemos portanto que em O som ao redor, o que de fato funciona como elo entre as classes são os seguranças, que, paradoxalmente, aumentam a vulnerabilidade de todos pois, os guardas da rua estão agora, dia e noite a observarem a vida dos moradores da rua, quem entra, quem sai, a que horas chegam. Os sons são fator importante para o filme pois, este é um personagem que se entrelaça aos outros. Os sons tem tem em si suas implicações sociais em cada um deles, pois eles revelam quem somos, aqueles que ouvimos, onde e como vivemos etc.

O filme sugere até um exercício: preste atenção aos sons que você é capaz de emitir, e também naqueles que você ouve todos os dias. Qual a implicação social que existe em cada um deles. É a partir desta ótica que se materializam as contradições sociais de nosso país.


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