Reflexões sobre a vida numa perspectiva da psicologia, filosofia e sociologia

sexta-feira, 2 de outubro de 2020

O que Divertida Mente ensina sobre as emoções

 


Você já se perguntou o que passa na cabeça de uma pessoa para ter determinado comportamento? A mente humana sempre foi fonte de muita curiosidade e, para os leigos, ela é ainda mais misteriosa. Foi pensando em explorar conceitos científicos e psicológicos que a Pixar criou o filme “Divertida Mente”.

O longa, dirigido por Pete Docter, chegou às telonas em 2015, e conquistou o coração e a cabeça de muita gente. Vencedor do Oscar de Melhor Animação, Divertida Mente é um filme para crianças e adultos mergulharem no universo das emoções.

A história se passa dentro da cabeça da garotinha Riley, de onze anos, e também fora dela, com todas as questões que circundam sua vida e de sua família. Os personagens de Divertida Mente que ocupam a Sala de Comando da sua mente são as emoções Alegria, Tristeza, Medo, Nojinho e Raiva.

As emoções guiam Riley desde o seu nascimento, mas as coisas começam a ficar mais complexas quando a família se muda para uma nova cidade. É a partir dessa grande transformação que as emoções são colocadas à prova. 

A característica de cada emoção

Alegria

Alegria, em Divertida Mente, é o centro de todas as emoções. Ela sempre quer ver o lado positivo das situações e foi protagonista das principais memórias e traços de personalidade de Riley. Após o nascimento da menina, a Tristeza e o Medo aparecem.

Tristeza

Tristeza é descrita, desde o início, de maneira negativa e tomamos o partido da Alegria logo de cara. A Tristeza está sempre “arruinando” os momentos felizes de Riley e a Alegria tenta, a todo o custo, se livrar dela. A metáfora é poderosa e só descobrimos o real papel da Tristeza mais para o final do filme. Mas falaremos disso depois.

Medo


“ESSE É O MEDO. ELE MANDA BEM NO QUESITO SEGURANÇA”

Divertida Mente, Pixar, 2015.

O terceiro a chegar na Sala de Comando foi o Medo. O papel dele é ser cauteloso e ficar sempre alerta para as situações que podem colocar Riley em perigo. O medo é essencial para a manutenção da vida.

Raiva

A personificação dessa emoção no filme é a de uma criaturinha vermelha que veste roupas sociais. Ele está sempre estressado e tenta lutar contra as injustiças do mundo, expelindo fogo pela cabeça quando alguma situação o tira do sério.

Nojo

ESSA É A NOJINHO. ELA BASICAMENTE EVITA QUE RILEY SE ENVENENE FISICAMENTE E SOCIALMENTE”.

Divertida Mente, Pixar, 2015.

Essa emoção não suporta brócolis e nem outro alimento ou situação que cause o mínimo de repulsa. A Nojinho, em Divertida Mente, envia sinais de alerta para que Riley se mantenha sempre saudável e integrada à sociedade.

As emoções e as memórias

O que significa “emoção” na psicologia? A Sociedade Brasileira de Inteligência Emocional (SBie) define “emoção” como a “responsável por gerar respostas e comportamentos que garantam a sobrevivência de uma pessoa diante de um estímulo externo, de modo proteger ou impulsionar o indivíduo para a realização de algo, as emoções fazem parte da vida humana.”

Na Sala de Controle, as 5 emoções tomam conta dessas respostas aos estímulos externos que Riley recebe. Essas repostas geradas pelas emoções criam memórias e são representadas no filme por pequenas esferas coloridas, onde cada cor representa a emoção que a criou.

Ou seja, todas as memória que possuímos têm uma cor, uma emoção mãe que a gerou e, quando lembradas, podem gerar emoções diferentes. Por exemplo, Riley vivia em Minessotta e sempre se lembrava de seu primeiro gol praticando hockey com muita alegria. Ao se mudar para a nova cidade e ter perdido o contato com o esporte, a garota agora se recordava daquele momento com tristeza. As emoções consolidam as memórias, mas podem mudar de tom dependendo do contexto que nos encontramos no presente.

As emoções na criação da personalidade

Algumas memórias são mais importantes do que outras pois constroem muito mais do que lembranças, elas são a base de nossa personalidade. No filme, essas lembranças poderosas que constroem a personalidade são chamadas de “memórias-base”. A cada momento especial e importante para a criação de um traço específico de personalidade, uma nova “ilha” era criada na mente de Riley.

No filme, a garota de 11 anos construiu a Ilha da Família, a Ilha da Honestidade, a Ilha da Amizade, e assim por diante. A cada nova memória, uma nova ilha era criada ou alimentada pelas emoções que fazia surgir.  O hipocampo é a estrutura cerebral que converte memórias de curto em longo prazo, e é ela que realiza a função representada pelas “memórias-base” em “Divertida Mente”.

Terra da Imaginação

Essa é uma das ilhas mais fascinantes da mente de Riley e o lar de seu amigo imaginário Bing Bong, uma espécie de elefante em Divertida Mente, que se mistura a traços de golfinho, gato e outras características interessantes. A ilha tem castelos de princesas, casas em forma de nuvem, batatas-fritas gigantes e mais um monte de outros objetos e personagens criados pela mente da garota. É a partir desse mundo que, quando criança, Riley era convencida de que um chão de lava estava sob os seus pés quando, na verdade, era apenas um chão normal.

O filtro da imaginação é mais forte nas crianças. No decorrer do filme, acompanhamos Riley passando por situações diferentes e ingressando na puberdade. Por esse motivo, a Ilha da Imaginação começa a desmoronar e muitos de seus moradores vão para o esquecimento. 

O esquecimento

Algumas memórias precisam ser esquecidas com o passar dos anos. No filme, as memórias que não têm mais utilidade para o presente são jogadas num lixão. 

Pode parecer trágico, mas pense numa situação traumática ou banal que aconteceu há alguns anos. A função do cérebro é tentar apagá-las para que novas memórias sejam criadas a fim de processar outras emoções, informações e memórias-base.

Os sonhos e o sono

Os sonhos são controlados pelas memórias, emoções e o subconsciente de Riley. A criação dos sonhos é mostrada no filme como um estúdio de gravações onde eles são criados a partir das situações que o consciente captou quando Riley estava acordada, e também pelo que o subconsciente guarda.

Em seu estado consciente, a mente absorve informações e episódios reais que se fundem ao imaginário, fixando-as na memória. Neurocientistas explicam que, uma vez que consolida as lembranças, a mente desenha ligações entre diferentes eventos para construir a uma história. Disso, informações são cruzadas e misturadas a ponto de criarem os sonhos mais loucos.

Sigmund Freud, considerado o pai da psicanálise, afirma que a censura, nos sonhos, opera nos sistemas inconsciente e pré-consciente, ou seja, um fragmento não é distorcido ao acaso.

“NÃO SE DEVEM ASSEMELHAR OS SONHOS AOS SONS DESREGULADOS QUE SAEM DE UM INSTRUMENTO MUSICAL ATINGIDO PELO GOLPE DE ALGUMA FORÇA EXTERNA, E NÃO TOCADO PELA MÃO DE UM INSTRUMENTISTA; ELES NÃO SÃO DESTITUÍDOS DE SENTIDO, NÃO SÃO ABSURDOS; NÃO… IMPLICAM QUE UMA PARCELA DE NOSSA RESERVA DE REPRESENTAÇÕES ESTEJA ADORMECIDA ENQUANTO OUTRA COMEÇA A DESPERTAR. PELO CONTRÁRIO, SÃO FENÔMENOS PSÍQUICOS DE INTEIRA VALIDADE – REALIZAÇÕES DE DESEJOS; PODEM SER INSERIDOS NA CADEIA DOS ATOS MENTAIS INTELIGÍVEIS DA VIGÍLIA; SÃO PRODUZIDOS POR UMA ATIVIDADE MENTAL ALTAMENTE COMPLEXA”. (FREUD, ED.IMAGO, 2001, P.136)

Também podemos fazer uma conexão entre o Trem do Pensamento e a insônia. Quando a Alegria e a Tristeza tentam acordar Riley através de um pesadelo e obtém sucesso, logo o Trem do Pensamento é acionado e a garota sai do estado de sono para o trabalho contínuo de seus pensamentos. É assim que a insônia aparece.

O papel da tristeza


A Alegria passa o filme todo tentando ignorar a Tristeza e reduzir cada vez mais o seu papel na vida de Riley. Mas o que a alegria não havia entendido ainda é que a Tristeza é necessária para compor a nossa memória, cognição, personalidade e experiências. 

Existe uma crítica profunda na relação entre a Alegria e a Tristeza, fundamentalmente relacionada à premissa imposta pela sociedade de que temos de ser felizes o tempo todo. Atualmente, as redes sociais refletem essa obrigação e compartilhamos apenas o lado bonito de nossas vidas.

Mas a vida não é feita somente de alegria. Sem a tristeza, não conseguimos enxergar a alegria. A tristeza nos ajuda a moldar quem somos e como reagimos às situações. Ela nos permite extravasar quando algo não está certo e é crucial no desenvolvimento da maturidade.

No fim, a Alegria entende que Riley não pode ser feliz o tempo todo e nem ter apenas memórias-base felizes construindo o seu eu. É aí que as duas emoções começam a trabalhar juntas, afinal, você também não se lembra de momentos felizes do seu passado com um pouquinho de melancolia? Isso acontece porque nada na vida é para sempre e tudo está em constante transformação.

Riley não mora mais em Minessotta e os momentos felizes que lá passou, hoje são lembrados com um misto de felicidade pelo que viveu, e tristeza por não poder mais viver aquele momento no seu dia a dia. Essa mistura é saudável pois ensina a recordar com felicidade e a compreender que mudanças são necessárias, mesmo que o presente pareça momentaneamente menos feliz que outrora.

Assistir Divertida Mente é confrontar as nossas próprias emoções. É entender que nada passa despercebido pelo nosso cérebro e que precisamos cultivar as emoções como se fossem grandes amigos. Quando essa relação acontece, o convívio com o nosso eu e com o mundo lá fora fica bem mais divertido.


Fonte: Telavita


quarta-feira, 18 de março de 2020

Criança com TDAH e a sua Integração com a família e a escola



Por: Dra. Ana Beatriz Barbosa Silva.




* Dra Ana Beatriz Barbosa Silva (Médica Psiquiatra, CRM/RJ 5253226/7)




Na criança com transtorno do déficit de atenção (TDAH), mais conhecido como hiperatividade, três sintomas principais se tornam características marcantes: a distração, a impulsividade e a hiperatividade. O que a princípio seriam características comuns em crianças “normais”, como a agitação, a correria, a falta de atenção em atividades prolongadas, principalmente as que não despertam o seu interesse, na criança com TDAH são mais intensas, frequentes e constantes. Sendo assim, a observação se torno o principal instrumento de avaliação de um médico, psicólogo ou outro profissional habilitado.



Como tudo nessa criança parece estar “a mais”, mais agitada, mais bagunceira, mais impulsiva, mais dispersa, podemos imaginar o quanto é desgastante o convívio com a família que, por falta de informação sobre o que é o TDAH, costuma rotular tal criança de mal-educada, insuportável e até mesmo má. É comum ela ouvir sobre o quanto ela é má, que “papai do céu” irá castigá-la, de que no futuro será uma pessoa desagradável e impopular e outros comentários do tipo “se você morrer hoje ninguém irá ao seu enterro”. Como realmente ela tem dificuldade de controlar seus impulsos, envolvendo-se em confusões e desentendimentos com a família e com as outras crianças, acaba acreditando no que lhe dizem, preocupando-se com os castigos divinos. Ouve diariamente uma quantidade de “nãos”, “pára”, “sai daqui”, “fica quieto”, com uma frequência muito maior que as outras crianças, gerando um sentimento de que há algo de errado com ela e de que é um estorvo.




É comum crianças com TDAH expressarem seu sofrimento e sentimento de rejeição dizendo que irão se matar, que irão fugir de casa ou que são infelizes. Muitas vezes ocorre dessa criança ocupar o lugar de bode expiatório da família e o tratamento com resultados positivos acarreta em uma ameaça ao sistema familiar, que encontrou o seu ponto de equilíbrio nessa criança problemática.

Na escola, algumas características que estavam em estado de latência no meio familiar surgem, aumentando suas dificuldades e revelando a sua potencialidade problemática. O aspecto hiperativo e/ou desatento agora se torna mais evidente. A criança é solicitada a cumprir metas e a seguir rotinas, executar tarefas e ser recompensada ou punida de acordo com a eficiência com que são cumpridas. A família não está presente para ajudá-la a se organizar ou cumprir as tarefas para facilitar as coisas para ela. Agora ela não pode correr a todo o momento, como também não pode ficar imóvel e precisa se adequar ao ritmo compatível com as demais crianças, com quem agora convive diariamente. As direções, tempos e ritmos serão determinados pelo professor, orientado por objetivos diferentes de seus pais. O professor que desconhece o problema pode pensar que ela é rebelde ou até irresponsável, o que gera um clima de embate entre ambos e os coleguinhas da escola. O desempenho escolar dessa criança é marcado pela instabilidade e mais uma vez surge um sentimento de inadequação, o que só agrava o problema e aumenta o rombo em sua autoestima.


Sendo assim, é crucial a importância de informação e conhecimento sobre o assunto de todos os envolvidos, a fim de melhorar a convivência e estimular bons comportamentos nas crianças com TDAH, tanto por parte da família quanto da escola, o que contribui para bons resultados no tratamento.



Orientar pais e professores sobre o que é o transtorno do déficit de atenção e como lidar com as crianças que apresentam o problema, também se torna tarefa imprescindível dos profissionais que estão implicados com o cuidado de tais pacientes, contribuindo para o desenvolvimento de suas aptidões, revelando talentos escondidos e despertando valores inatos.




sexta-feira, 3 de janeiro de 2020

Preocupação com dinheiro duplica a dor


Preocupação com dinheiro – Estudo relaciona a insegurança emocional e o estresse provocados pela instabilidade econômica instável a maior sensibilidade a sintomas físicos.
Poucas coisas causam tanto desconforto quanto não saber quando chega o próximo pagamento. Ou ter a convicção de que o montante a ser recebido não será suficiente para saldar de todas as contas. A insegurança econômica traz consigo um amplo espectro de efeitos negativos, incluindo sentimentos de baixa autoestima e prejuízo do funcionamento cognitivo. Cientistas descobriram ainda que o estresse financeiro pode causar dor física. É o que mostra um artigo publicado este ano no periódico científico Psychological Science.
A pesquisadora Eileen Chou, doutora em ciências e professora de políticas públicas na Universidade da Virgínia, e seus colaboradores começaram o estudo pela análise de um conjunto de dados de 33.720 famílias americanas. Os cientistas constataram que aquelas com maiores níveis de desemprego eram mais propensas a comprar analgésicos isentos de prescrição. Utilizando comparação de dados e revendo experimentos já realizados nessa área, a equipe descobriu que o simples fato de pensar sobre insegurança financeira bastava para aumentar a sensação dolorosa.

Sentir quase o dobro de dor física

Por exemplo, as pessoas relatavam sentir quase o dobro de dor física após se lembrarem de um período financeiramente instável em sua vida, em comparação aos momentos em que rememoraram algum período de segurança econômica.
Em outro experimento, foi pedido a estudantes universitários que mantivessem as mãos num balde de gelo o máximo que pudessem, até que a sensação se tornasse dolorosa.
Os voluntários mais ansiosos, que ouviam informações com o objetivo de despertar neles sentimentos de ansiedade em relação do futuro profissional, removiam as mãos do balde de gelo mais rápido (mostrando menos tolerância à dor) do que aqueles que não eram. Os pesquisadores descobriram também que a insegurança econômica reduzia o senso de autocontrole das pessoas, o que, por sua vez, aumentava a sensação dolorosa.

Epidemia da prescrição de analgésicos

Chou e seus colegas sugerem que, por causa dessa relação entre a preocupação com dinheiro e diminuição da tolerância à dor, a recessão pode ter sido um fator de promoção da epidemia da prescrição de analgésicos nos Estados Unidos. No Brasil, não há dados que mostrem a correlação recente entre venda de analgésicos e crise financeira. Mas a ideia é bastante plausível, principalmente se considerarmos que o estresse em geral é bastante conhecido como responsável pelo aumento das sensações de dor.
Mais pesquisas são necessárias para separar a ansiedade financeira de outras fontes de pressão. “A hipótese de que o estresse financeiro causa dor tem lógica, embora seja útil ver outras evidências rigorosas num ambiente do mundo real”, diz a economista Heather Schofield, professora da Universidade da Pensilvânia, que não participou do estudo.

Fonte: Mente e Cérebro

As Voltas Que o Mundo Dá e Nosso Tempo de Espera

Por Matias Borba A vida é cheia de experiências estranhas e assustadoras por tantas vezes. Essa vida, ela nos dá dá medo!... Quando somos ...